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quarta-feira, 7 de junho de 2023

Leituras - maio de 2023

À semelhando do post que realizei no mês passado, aqui apresento as minhas leituras do mês de maio de 2023. Para além de livros que recebi das editoras, também irei falar sobre livros que estavam na pilha de leitura e também de alguns volumes de coleções que estou a acompanhar.


Homem-Aranha Vol. 9: O Fim do Duende Verde!

Uma das leituras que realizei este mês foi referente ao novo volume do Homem-Aranha da Coleção Clássica Marvel publicada pela editora Luppa e distribuída pelos jornais Record e Correio da Manhã.

Este volume que reúne os materiais publicados originalmente em Amazing Spider-Man (1966) #37-41 e Strange Tales Annual 2 (1963) tem argumentos de Stan Lee e ilustrações de Steve Ditko, John Romita e Jack Kirby. De facto, este volume é especial uma vez que as duas primeiras histórias marcam a despedida de Steve Ditko da revista do Homem-Aranha. É inegável o legado e importância que este autor tem tanto para a Marvel mas principalmente para este personagem, no entanto, senti que estas últimas duas histórias não foram tão interessantes como algumas das que ele ilustrou.


Para o substituir surge John Romita que também tem uma fase marcante com a personagem. E, de facto, são as duas primeiras histórias ilustradas por este artista que se destacam neste volume, nomeadamente a icónica Como Era Verde o Meu Duende. É nesta história que finalmente os leitores e o próprio Peter Parker descobrem a identidade do Duente Verde. A revelação de que Norman Osborn, pai de Harry Osborn, é o vilão é chocante e um dos marcos na história da personagem. Destaque ainda para a história de apresentação do Rhino e finalmente um cross-over com o Tocha Humana ilustrado por Jack Kirby. São 142 páginas do melhor que esta coleção tem para oferecer!


Quarteto Fantástico Vol. 12: Este Homem...Este Monstro!

Este volume que reúne as histórias publicadas originalmente em Fantastic Four (1963) #51-55, trata-se do quinquagésimo quinto volume da "Coleção Clássica Marvel" publicada pela editora Luppa e distribuída pelos jornais Record e Correio da Manhã.


A par da revista do Homem-Aranha, a fase do Quarteto Fantástico liderada por Stan Lee e Jack Kirby é de excelência e aqui temos mais um volume que reúne uma das melhores histórias de todo esta fase, bem como continua a apresentar conceitos e personagens que ainda hoje são relevantes para o universo Marvel, seja nos comics, seja nos filmes. A história Este Homem...Este Monstro trata-se de uma das mais icónicas aventuras do grupo.


Além disso, neste volume vemos a apresentação do Pantera Negra e de Wakanda, a nação que lidera. Este acontecimento é igualmente um marco na história da editora uma vez que apresenta um personagem negro e demonstra a atenção que Stan Lee e Jack Kirby davam aos movimentos e acontecimentos sociais que os rodeavam na altura de publicação destas revistas. O personagem inicialmente trava uma batalha com o grupo, no entanto e como em muitas outras histórias, este torna-se um aliado do grupo. Assim, o grupo e os leitores conhecem melhor Wakanda, a sua cultura e a sua incrível tecnologia. Este volume ainda conta com a presença do vilão Garra Sónica e com o regresso do Surfista Prateado e dos Inumanos. Mais um volume que demonstra a capacidade criativa da dupla Lee/Kirby.


Akira

Este mês também tive a oportunidade de ler Akira, no entanto, dado o meu entusiasmo com a qualidade desta obra, dediquei uma análise específica para a mesma que podem consultar carregando aqui.


Entretanto deixo a lista de todos os volumes que constituem a única edição nacional publicada:

Akira Volume 1: A Auto-Estrada
Akira Volume 2: O Poder de Tetso
Akira Volume 3: A Armadilha
Akira Volume 4: O Plano dos Anciãos
Akira Volume 5: O Despertar
Akira Volume 6: O Satélite Assassino
Akira Volume 7: A Missão de Sakaki
Akira Volume 8: A Vitória de Takashi
Akira Volume 9: O Que Domina o Caos
Akira Volume 10: Encontro nas Profundezas
Akira Volume 11: A Batalha pelo Templo de Miyako
Akira Volume 12: O Terceiro Fenómeno
Akira Volume 13: Encontro no Submundo
Akira Volume 14: A Demonstração do Poder
Akira Volume 15: A Prova de Força
Akira Volume 16: A Transmutação
Akira Volume 17: O Reencontro
Akira Volume 18: Sonhos do Passado
Akira Volume 19: Amigos para a Eternidade
 

Macbeth: Rei da Escócia

Outra das leituras que realizei durante este mês de maio foi o livro Macbeth: Rei da Escócia que com argumento de Thomas Day e ilustrações de Guillaume Sorel. Esta obra foi originalmente publicado pela Glénat em dois volumes, o primeiro em 2019 e o segundo em 2021. A edição nacional foi publicada num volume único integral pela editora A Seita como parte da Coleção Nona Literatura.


Para começar, este volume trata-se de uma adaptação do texto de William Shakespeare. No entanto, os próprios artistas admitem que a adaptação apresentada toma algumas liberdades. Apesar de não ter lido a obra original, mesmo assim gostei da história de ascensão e queda de Macbeth. Macbeth é acima de tudo uma história trágica, onde Lady Macbeth, a esposa do rei da Escócia, assume um papel de vilã através das manipulações exercidas sobre o cavaleiro. Apesar da mulher exercer pressão para este manter o poder, o que o leva a cometer atos bárbaros, a história é envolvida numa espécie de profecia/maldição quando Macbeth encontra três bruxas no início da trama.


A partir deste momento, a primeira parte da história retrata a ascensão de Macbeth como rei da Escócia. A forma como este consegue esse posto não é a mais correta e trará consequências. Além disso, à medida que o tempo passa e o seu poder vai crescendo, de igual modo aumentam os seus inimigos. Consequentemente, na segunda parte da história o leitor acompanha a queda dos Macbeth.

Particularmente gostei da forma como os erros do passado voltam para atormentar os Macbeth, com especial destaque para Lady Macbeth, que provavelmente é a personagem mais importante deste livro. A dualidade dos personagens é algo que dá força à obra. Se por um lado, Lady Macbeth é uma mulher determinada, fria e sem escrúpulos, por outro Macbeth é apresentado como um homem que, apesar de ter um senso de justiça e de bem, é ultimamente derrotado pela sua fraqueza e pela sua paixão o que o leva a tornar-se um fantoche da sua mulher.


Para elevar o bom argumento apresentado, as ilustrações de Sorel são um deleite para os olhos. A planificação das vinhetas é diversificada e dinâmica, muitas vezes apresentando um estilo cinematográfico widescreen, tirando partido de toda a largura das páginas. As paisagens são belas e diversas, os personagens são carismáticos e a ação é bastante dinâmica. Destaque para o uso das cores com recurso a aguarela que dão uma identidade visual e um estilo a esta obra.


Para brindar um conteúdo de qualidade, a edição da editora A Seita é em capa dura, com papel de alta qualidade, repleta de extras, além de ser uma edição integral. Um dos livros a ter em conta e que merece ser lido!

Leram alguns destes livros?
Quais foram as vossas leituras de maio?

segunda-feira, 5 de junho de 2023

Análise - "Akira" com argumento e ilustrações de Katsuhiro Otomo

Esta sem dúvida foi uma das minhas leituras preferidas de todos os tempos e uma das que mais apreciei. Akira de Katsuhiro Otomo tem uma reputação inegável entre os leitores de banda desenhada. Durante muitos anos tive alguns volumes, no entanto, apenas no mês passado é que consegui completar a edição nacional editada pela Meribérica/Liber. Vamos ver o que achei da obra!


Começando pela edição nacional, esta segue a edição publicada originalmente pela Epic Comics, associada à Marvel Comics nos Estados Unidos. Deste modo, além de ter leitura ocidental (da esquerda para a direita), fruto do "espelhamento" das vinhetas, esta edição é igualmente colorida. As cores são da autoria de Steve Oliff que até recebeu um prémio Eisner em 1992 pelo seu trabalho de colorização. Em 2019, a JBC Portugal tentou publicar a obra seguindo a versão original, no entanto apenas publicou o primeiro de seis volumes. Particularmente gostaria de ter lido a versão original e espero que, no futuro, alguma editora portuguesa o faça, não obstante gostei bastante da versão ocidentalizada dado esse trabalho fantástico de Steve Oliff. Além de tornar mais acessível a obra a leitores ocidentais, a colorização aproxima o trabalho do manga à adaptação cinematográfica lançada em 1988 e que foi realizada pelo autor do manga. De facto, o meu primeiro contacto com a obra foi através desse filme absolutamente influente e um marco no cinema de animação, o que me permitiu ter uma noção da história contada por Otomo. No entanto, dado a extensão da obra original, a versão cinematográfica trata-se de uma versão condensada da história do manga e que apresenta até algumas diferenças. Além disso, a publicação original da obra ocorreu entre 20 de dezembro de 1982 e 25 de junho de 1990 nas páginas da revista Young Magazine e o filme foi lançado em 1988. Mas dada toda esta apresentação, de que se trata afinal a história de Akira?


A trama passa-se em Neo Tókio, no ano de 2019, 38 anos após uma explosão atómica ocorrida na cidade e que levou à 3ª Guerra Mundial. Assim, Neo Tókio apresenta-se como uma cidade pós-apocalíptica muito inspirada na cultura cyberpunk e que está repleta de gangues de motos que entram em lutas entre si. Um desses gangues é liderado por Shotaro Kaneda, uma das várias personagens que assume o protagonismo ao longo da história.


Numa noite, o gangue de Kaneda sofre um acidente e Tetso, o melhor amigo de Kaneda, atropela uma criança com pele azul clara e aspeto de idoso. Após este evento, Tetso começa a ter reações estranhas e que irão desencadear um enorme poder que o mesmo desconhecia ter dentro de si. Estas reações acabam por atrair a atenção de agentes do governo que realizam experiências com crianças. Tetso acaba por ser capturado e torna-se cobaia dos cientistas do governo que estudam os poderes de Tetso. É neste contexto que Kaneda se envolve numa mega série de eventos para salvar o seu amigo, sem saber da existência de Akira, uma entidade poderosa que está prestes a despertar.


Dada uma breve apresentação do enredo, o primeiro ponto que quero referir é que esta história é bastante complexa, tanto pelas tramas e sub-tramas que apresenta para um vasto elenco de personagens, bem como para os diversos temas que Katsuhiro Otomo aborda ao longo do desenrolar da mesma. Akira aborda no seu argumento temas como poder, corrupção, política e o envolvimento de outros países na política externa, amizade, reflexões sociais, utilização de drogas, entre outros. Assim, o grande feito de Otomo na construção do argumento é abordar todos estes temas de forma cativante e mantendo o leitor sempre na ânsia de saber qual o desfecho da trama e dos respetivos personagens. E é maioritariamente através dos seus personagens que o argumentista consegue comentar sobre os diversos temas que referi.


Falando um pouco dos personagens, diria que Akira não apresenta um verdadeiro protagonista. Mesmo assim diria que os personagens mais relevantes são Tetso, Kaneda e Kei. Apesar disso, a história apresenta vários núcleos de personagens e, mesmo aqueles que apresentam um papel mais secundário quando comparado a estes três personagens, acabam por ter um papel fundamental no enredo. Isto permite que Otomo consiga variadas vezes mudar o foco da ação, construindo as bases necessárias para o desenvolvimento da história, sem que o leitor nunca perca o interesse durante a leitura.


Dado este vasto elenco de personagens, um dos pontos mais interessantes de Akira é a forma como Otomo trabalha os seus personagens, dando-lhes arcos narrativos interessantes e complexos. Além disso, as ações tomadas pelos personagens, bem como as consequências das mesmas ajudam a moldar o caráter das personagens. Destaque para o personagem Tetso que, por razões óbvias, é aquele que apresenta uma maior evolução ao longo de toda a história.


Relativamente às ilustrações, estas são absolutamente magistrais. Em primeiro lugar, dada a extensão da obra é fantástica a consistência apresentada ao longo dos 38 capítulos. Dada a inclusão de imensas cenas de ação, este talvez seja o destaque mais óbvio da ilustração deste manga. Os diferentes ângulos apresentados pelo artista, assim como a capacidade de dar dinamismo à ação, são alguns dos pontos mais fortes da ilustração. No entanto, o detalhe apresentado nos cenários e a utilização de sombra e luz são igualmente utilizados de forma exímia. Por fim, o ponto que acho mais importante na ilustração de Otomo são as expressões faciais e a linguagem corporal que este ilustra. Abordando o caso específico de Tetso, sem utilizar uma única palavra e recorrendo apenas às expressões faciais de dor, ao suor e lágrimas e à postura contorcida do seu corpo, o artista consegue transmitir ao leitor da forma mais eficaz possível os momentos agoniante que o personagem está a passar. Absolutamente soberbo!


Para finalizar tenho de fazer referência ao filme de animação realizado pelo autor da obra e lançado em 1988. É indubitavelmente um marco no cinema de animação por todas as técnicas revolucionárias que foram utilizadas e pelo recurso a 24 frames por segundo que tornam a animação extremamente dinâmica. Dadas as limitações de tempo para desenvolver o argumento, a história apresentada é uma versão condensada do manga, com algumas diferenças, mas que consegue captar a essência do mesmo. Acho que é uma experiência complementar e um filme obrigatório para qualquer cinéfilo.

Passados tantos anos Akira continua a ser uma das obras mais importantes e relevantes de todos os tempo e que sem dúvida tem resistido muito bem ao teste do tempo. Katsuhiro Otomo mostra nesta obra toda a sua qualidade como autor completo, tanto no argumento como na arte. É sem dúvida uma daquelas obras que "toda a gente tem de ler pelo menos uma vez na vida" e que devem estar sempre em catálogo para os leitores. Deste modo, o meu desejo é que alguma editora recupere a série e finalize o trabalho iniciado pela JBC Portugal.