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sexta-feira, 16 de junho de 2023

A série “O Corvo” de Luís Louro

Com o relançamento do terceiro volume O Corvo III - Laços de Família (2007) pela editora Ala dos Livros, decidi escrever um artigo que aborda a série O Corvo da autoria de Luís Louro.

Luís Louro é um ilustrador, desenhador e autor da banda desenhada, nascido em junho de 1965 em Lisboa. Com uma extensa carreira na banda desenhada portuguesa que conta com parcerias com Tozé Simões, com quem lançou a série Jim Del Mónaco e a compilação de histórias Universo Negro, Rui Zink e até Nuno Markl.



Apesar de todas essas parcerias, a partir do ano de 1994 Louro dedicou-se aos argumentos e assinou obras como O Corvo (1994), Alice (1995), Watchers (2018), Sentinel (2019), entre tantas outras. De todos estes trabalhos, certamente o que mais se destaca é a série O Corvo.

Depois do sucesso do primeiro álbum, a série teve, até ao momento, mais 4 novas entradas: O Corvo II - O Regresso (2003), O Corvo III - Laços de Família (2007), O Corvo IV - Inconsciência Tranquila (2020) e O Corvo V - Inimigos Íntimos (2021). Mas vamos por partes. Afinal quem é O Corvo?

O Corvo (1994)


O Corvo foi lançado em 1993 e marca, assim, a primeira obra a solo do artista português. Neste livro acompanhamos a história de um carteiro que reside em alfama e que descobrimos o seu passado e infância logo no primeiro capítulo do livro. Com ilustração a preto e branco, que nos ajuda a diferenciar visualmente o período da infância de Vicente com o resto da história, Luís Louro mostra-nos a trágica infância de Vicente.

O seu pai, polícia de profissão, é retratado como um bêbado que, após um dia de trabalho vai ao café e fica embriagado. Quando chega a casa, senta-se no sofá acompanhado de uma garrafa de vinho e de uma pistola enquanto assiste ao jogo das meias-finais do campeonato do mundo de 1976 onde Portugal enfrentaria a Inglaterra e que acabaria por perder. No momento do segundo golo dos ingleses, o pai de Vicente exalta-se e começa aos tiros pela casa e tragicamente acaba por assassinar a própria mulher. Atormentado pelo sentimento de culpa o homem acaba por se enforcar e Vicente deixa a cidade para viver na casa dos avós no campo, onde passa grande parte da sua infância.


Aqui são demonstrados mais alguns momentos chave da construção da personalidade do protagonista. Vicente torna-se fascinado por revistas de super-heróis e afasta-se dos outros miúdos da aldeia. Assim, este torna-se vítima de bullying e fecha-se cada vez mais o seu próprio mundo. Outro momento importante é quando é violado por várias raparigas mais velhas que pensavam que Vicente era “maricas”. Todos esses acontecimentos fazem com que estejamos perante um personagem problemático com vários traumas e com desdobramentos de personalidade.


Anos mais tarde volta para a cidade quando o seu avô morre. Aí torna-se carteiro, lê as suas bandas desenhadas e é acentuado o seu distanciamento com o mundo real. Quando o seu único elo de ligação à realidade, uma amável senhora que o tratava bem acaba por falecer, Vicente sente a necessidade de deixar emergir o seu subconsciente e transformar-se no Corvo. É na criação deste alter ego que o jovem consegue desprender-se da timidez de Vicente e aliado ao seu fascínio por super-heróis e banda desenhada começa a combater o crime.



De facto, com o passar dos anos Lisboa ficou tomada pela criminalidade e, então, o Corvo segue numa jornada na qual pretende acabar com os problemas que este acha estarem a assombrar a cidade. Para isso tem a companhia da sua fiel companheira Robim, a sua bicicleta. Juntos vagueiam na noite pelos telhados de Lisboa e vemos o desastrado Corvo nas suas aventuras que levam a ter situações bastante engraçadas, sejam estas causadas pela sua trapalhice ou pelas peculiaridades dos personagens que encontra. Deste modo, o duo magnífico irá fazer das suas sempre com a intenção de fazer o bem, mesmo que as suas ações não o reflitam.


O argumento é carregado humor negro e ácido com que Luís Louro consegue deixar os leitores desconfortáveis e ao mesmo tempo arrancar gargalhadas. É sem dúvida uma paródia ao género super-heróis e que foi bastante inovadora, principalmente para o panorama nacional. Todos estes elementos fazem de O Corvo um sucesso tremendo e que se reflete nas seis edições lançadas deste livro, mas apesar do argumento ser muito bem construído e divertido, é na arte que Luís Louro se destaca.


O seu traço é detalhado e expressivo e algo cartonesco e que utiliza muito bem os quadros grandes desta edição, fazendo com que este livro seja uma experiência visual bastante atrativa para os leitores. Além do visual característico de seu personagem, é Lisboa e principalmente os seus telhados que tem o destaque desta obra. Assim O Corvo pode resumir-se a um livro sólido que utiliza o espírito português para construir um anti-herói e que tem um grande vigor na sua arte e no seu humor.


O Corvo II - O Regresso (2003)


Em 2003 e em celebração pelos dez anos do lançamento do primeiro volume da série, Luís Louro regressou ao personagem com o livro O Corvo II - O Regresso. Apesar do longo período entre o lançamento dos livros, a trama continua pouco tempo depois do final do capítulo anterior. Assim, o Corvo sai do hospital e tem como primeira missão resgatar Robim que desapareceu no final do primeiro livro.


Neste novo capítulo é expandido o universo introduzido e apresentada em 1994, ora aproveitando personagens que já tinham aparecido no livro anterior, ora introduzindo novos. Neste contexto, a personagem Joana aparece como interesse amoroso de Vicente, no entanto os seus traumas, como o abuso sexual que foi vítima, fazem-no sentir reticente em relação ao avanço da mesmo . O desenvolvimento da trama é superior ao anterior e o encerramento desta é brutal e retrata de forma brilhante a psicologia do Corvo. Para além das referências à cultura pop, como livros de banda desenhada da Marvel, Senhor dos Anéis e até Jim del Mónaco, obra de Luís Louro, aparecem também referências nas paredes ao clube SL Benfica e à banda Ramp em que o personagem apareceu na capa do álbum Intersection.


No meio dessas referências há também uma brincadeira na qual o Corvo encontra “o homem que mordeu o cão”: Nuno Markl. Mas são as referências visuais dos heróis americanos que tem um maior destaque nesta publicação, seja numa pose parecida ao Homem-Aranha ou ao Spawn no topo dos telhados. A nudez que é uma das referências visuais introduzidas no capítulo anterior volta, bem com a representação do mundo da prostituição que geram cenas hilariantes e muito divertidas. Por todas estas razões, este é o meu álbum favorito de toda a série.

O Corvo III - Laços de Família (2007)


No volume O Corvo III - Laços de Família temos um volume diferente dos outros dois por duas razões. A primeira é o facto de Nuno Markl assumir o argumento do mesmo, ficando Luís Louro apenas na ilustração. A segunda é a escolha de apenas representar o Corvo e não vermos nenhuma interação de Vicente.

A introdução de Nuno Markl é muito interessante, uma vez que este traz a sua interpretação do personagem. A história gira à volta de um reality show de super-heróis e tendo em conta que este volume foi lançado em 2007, numa altura em que a televisão portuguesa já tinha apostado neste tipo de programas, tem toda a lógica este ser o tema abordado neste volume. Uma das características fundamentais da série é a crítica a temas sociais e, deste modo, o tema aqui abordado torna este álbum relevante até nos dias de hoje.


No entanto, tal como referi anteriormente, a escolha de apostar apenas no Corvo faz com que este volume não possua o outro lado dramático do personagem. Consequentemente isto leva a uma leitura mais leve, onde acompanhamos as aventuras e trapalhices do Corvo. Particularmente, a falta desse lado dramática leva-me a achar que o desenvolvimento desta história fica uns furos abaixo quando comparada com o desenvolvimento dos dois anteriores. Não obstante se coloca em causa a qualidade do álbum. Esta mudança de rumo é bem-vinda, até porque sinto que esta abordagem vem trazer um novo ar à série em vez de voltarmos a ter “mais do mesmo.” Com isto são apresentados novos personagens como “O Senhor do Mal”, a malvada, fantástica, soberba, linda, terrível “Viúva Negra” e “O Pombo” (que tinha aparecido no final do volume 2), numa clara auto referência ao argumentista deste álbum. Finalmente é também apresentada a verdadeira origem do “Combustão”, que Luís Louro viria a resgatar no quarto volume da série.


Esta ano o volume foi reeditado pela Ala dos Livros, algo que os leitores já pediam há bastante tempo. A edição original da Asa apenas teve uma edição e, desde então, tornou-se um livro bastante difícil de se encontrar. Assim, é de louvar a iniciativa da editora em permitir o acesso deste livro novamente aos leitores portugueses. Naturalmente, para aqueles que já leram os volumes 4 e 5 da série poderão estranhar a ilustração, uma vez que a técnica utilizada por Luís Louro é diferente e também porque o seu traço evoluiu. Mesmo estando em linha com o traço dos volumes anteriores, o trabalho gráfico é muito bom.


Um dos extras presentes neste álbum é a troca de correspondência via e-mail entre o argumentista e o ilustrador e nota-se que o processo de criação do mesmo não foi fácil, verificando-se um longo desenvolvimento do argumento. Este álbum apresenta também um prefácio assinado por Nuno Markl em que este descreve o processo de criação de uma banda desenhada.

Apesar de não ter tão bom quanto dos dois primeiros, este volume tem a sua importância por levar a série para um lado ainda mais cómico e o seu grande trunfo é a abordagem cómica e satírica de um tema que ainda hoje é relevante.

O Corvo IV - Inconsciência Tranquila (2020)


Após um hiato de 13 anos do personagem e também do próprio autor, que durante alguns anos desses anos se afastou da banda desenhada, voltamos acompanhar as histórias deste personagem tão querido da banda desenhada portuguesa. Neste quarto volume podemos perceber logo à partida que está mais em linha com o tom cómico abordado por Nuno Markl no terceiro volume do que como o tom dos dois primeiros. Assim os elementos mais dramáticos de Vicente apresentados em O Corvo e O Corvo II - O Regresso dão lugar à comicidade, diversão e asneiras provocadas pelo herói lisboeta. Mas engana-se quem pensa que isso afeta a qualidade deste álbum. Muito pelo contrário! É o próprio afastamento de Vicente, que não aparece neste livro,  que torna esta história numa autêntica aventura "inconscientemente tranquila.


Luís Louro mostra novamente o porquê de ser um dos melhores artistas de banda desenhada com o tom muito próprio da série cheio de humor negro, sexo, drogas e muita crítica social exposta através desse humor que o autor tão bem sabe usar. Quem conhece outros livros do autor percebe que este elemento está bem presente nos outros álbuns da série.
Nesta nova aventura o Corvo terá de enfrentar o vilão Fanã, que já tinha sido apresentado no segundo livro da série, e que se apresenta agora como Combustão. Para o travar está novamente o Corvo e a sua fiel companheira Robim. A história é desenvolvida ao longo de cinco capítulos, sempre com um ritmo muito bom e situações hilariantes que irão arrancar gargalhadas aos leitores mas sempre com audácia e o sentido provocador tão característico de Luís Louro. Se os álbuns anteriores funcionavam como uma crítica e até certo  uma ridicularização das histórias de banda desenhada, particularmente as de super-heróis, este não foge à regra. Aliás, vai mais além e temos até um momento de quebra da quarta parede quando  o vilão irrita-se com o narrador por não saber dizer o seu nome.


As homenagens ao Homem-Aranha estão presentes e juntam-se as de heróis como o Hulk, Capitão América e Super-Homem. O cenário é novamente de Lisboa, privilegiando os telhados mas temos direito a novos sítios nunca antes explorados. Destaque para o clube noturno "Convento", que é centro de operações de um novo criminoso e que conta com várias freiras sexualizadas e que irão causar problemas ao alter-ego de Vicente. Nessas passagens podemos ver a nudez tão presente na série, bem como nas várias cenas em que o Corvo tenta avisar o padre do seu bairro, interrompendo momentos de cariz sexual protagonizados pelo mesmo. Novamente a crítica à classe social religiosa que muitas vezes é associada a crimes sexuais. No momento em que o Corvo está no meio das freiras, talvez vejamos um dos maiores momentos de profundidade deste álbum, uma vez que este tem um trauma apresentado no 1º volume quando foi violado por várias raparigas.


Apesar de todos estes momentos de diversão protagonizados pelos personagens que encontra pelas ruas e telhados de Lisboa, o que está envolvido na maioria dos momentos mais leves é o vilão. Combustão é um vilão ignorado por todos, mesmo que tenha um visual bastante interessante. Esse visual bem como todas as ilustrações deste volume são um dos trunfos deste livro. Existe uma clara evolução no traço de Luís Louro que apresenta enquadramentos mais ousados e um trabalho de iluminação absolutamente soberbo. Não querendo desmerecer os fantásticos trabalhos realizados nos volumes anteriores, a arte final e principalmente as cores que foram feitas digitalmente são um espanto para os olhos dos leitores como podemos ver nas double splash pages do álbum.


Para melhorar tudo isto, a edição da Ala dos Livros tem um formato maior do que as edições anteriores, o que leva a arte de Louro a outro patamar. Sem dúvida o formato ideal para esse tipo de histórias. A encadernação do livro é boa, a capa dura é brilhante e o papel é muito bom como destaque para o carimbo branco já clássico nos livros da editora. É certo que o tom mais dramático é deixado de lado para uma aventura mais frenética, mas a arte compensa e vai de encontro à proposta do livro: uma história simples, engraçada e incrivelmente fantástica.


O Corvo V - Inimigos Íntimos (2021)


O mais recente volume da série O Corvo, que conta com o subtítulo Inimigos Íntimos, é de certa maneira "um regresso às origens". Verifica-se logo pela capa o regresso de Vicente que já não aparecia na série deste o segundo volume. E destaco já esta capa que é, sem sobra de dúvidas, a melhor capa de toda a série e que representa muito bem a essência da série.

O lado mais dramático do personagem é novamente abordado e Louro consegue no seu argumento balancear muito bem o lado dramático de Vicente com o humor e a crítica que se verifica nas interações d'O Corvo. Assim, o artista divide de forma inteligente o argumento em duas narrativas: uma em que acompanhamos as peripécias do anti-herói e outra em que acompanhamos Vicente numa consulta com a sua psicóloga. A primeira parte é parecida a outras aventuras do Corvo e onde Luís Louro potencializa os seus dotes de ilustração, no entanto o que mais me agradou foi a narrativa do Vicente que traz algo de novo para a série enquanto que fez revelações importantes do passado do personagem.



Assim, os leitores voltam à infância de Vicente e Luís Louro volta a mostrar alguns do acontecimentos retratados no primeiro volume numa outra perspetiva, enquanto expande esse passado com novos acontecimentos nunca antes vistos, como por exemplo a origem da sua fiel companheira Robim. Este flashback é apresentado no terceiro capítulo deste álbum. Isto leva-me a referir que os últimos dois volumes da série apresentam 5 capítulos em contrapartida aos 3 utilizados na trilogia original, o que permite um melhor desenvolvimento do argumento.



O final é chocante com um duplo plot twist que a mim me agradou bastante. Este volume está também repleto de várias referências e que ajudam a expandir o Louroverso.

Finalmente apresento aqui o meu top 5 histórias d'O Corvo:

1. O Corvo II - O Regresso (2003)
2. O Corvo (1994)
3. O Corvo V - Inimigos Íntimos (2021)
4. O Corvo IV - Inconsciência Tranquila (2020)
5. O Corvo III - Laços de Família (2007)

Luís Louro já desvendou nas suas redes sociais que finalizou o sétimo volume da série apesar do sexto volume ainda não ter sido publicado

O que acham da série O Corvo?
Já leram?

sexta-feira, 28 de abril de 2023

O que aconteceu aos Super-heróis?

Olhando para o mercado nacional de BD, arrisco-me a afirmar que estamos a viver a "era dourada" da edição de banda desenhada em Portugal. Analisando de forma breve e genérica o panorama da BD em Portugal, ao longo dos últimos anos editoras como A Seita, a Ala dos Livros e a Arte de Autor vieram trazer materiais de origem franco-belga com elevada qualidade em edições primorosas; a Devir pavimentou e popularizou o materiais de origem japonesa em território nacional que permitiu o boom do mangá a que estamos assistir; os artistas portugueses estão cada vez mais presentes nas bancas e livrarias especializadas, no entanto, simultaneamente, tem-se verificado o desaparecimento dos materiais de origem americana, nomeadamente no género dos super-heróis. Deste modo, levanto a seguinte questão: O que aconteceu aos Super-heróis?


Para muitos leitores, as edições brasileiras importadas da Abril foram a porta de entrada ao mundo dos super-heróis. É inegável a importância dos "formatinhos" para a consolidação de toda uma geração de leitores de banda desenhada. Mais tarde, a Devir assume, no início deste milénio, o papel de publicadora de material Marvel e DC Comics em Portugal. Com lançamentos de arcos fechados e também de várias revistas como Homem-Aranha e X-Men, toda uma outra geração de leitores teve a oportunidade de conhecer os principais heróis dos comics americanos. Durante este período, outras editoras, como a BD Mania, também tiveram o seu contributo na publicação de livros de BD do género de super-heróis.


Nos últimos 10 anos as grandes responsáveis por publicarem os comics de super-heróis da DC Comics e da Marvel foram as editoras Levoir e G Floy Studio Portugal. Apesar de terem abordagens diferentes, é inegável o papel fundamental destas duas editoras. Irei agora abordar com mais detalhe as apostas de cada uma e, principalmente, as estratégia adotadas.


Começando pela Levoir, esta publicou a grande maioria dos seus materiais em coleções em parceria com o jornais Público e o Sol. Com coleções que variam entre os 3 e os 20 volumes, estas diferenciam-se entre coleções gerais e coleções específicas. No que diz respeito aos materiais da Marvel, a editora publicou 4 coleções gerais, ou seja, coleções que englobam vários personagens ou grupos de personagens. Deste modo, as coleções Heróis Marvel – Série I (15 volumes), Heróis Marvel – Série II (10 volumes), Universo Marvel (20 volumes) e Poderosos Heróis Marvel (15 volumes), compilam várias histórias de eras diferentes e de diferentes personagens. Estas coleções mix são, sem dúvida, voltadas para o público que não tem experiência de leitura e pretende começar a ler publicações de super-heróis. Uma vez que a cronologia é algo verdadeiramente importante para entender a maioria destas histórias, através destas coleções os leitores entram em contacto com sagas e histórias relevantes para cada um dos principais heróis que se passam em momentos distintos do universo em questão. Isto permite perceber qual o status quo do personagem, bem como quais os artistas que ajudaram a moldar o mesmo.


Também a DC Comics recebeu coleções gerais publicadas pela Levoir. As coleções Super-Heróis DC Comics - Série I (20 volumes), Super-Heróis DC Comics - Série II (10 volumes), Super-Heróis DC Comics (15 volumes) e No Coração das Trevas (10 volumes) incluem-se nesta categoria. No entanto, a editora também apresenta coleções específicas. A primeira delas foi a coleção Batman 75 anos (10 volumes). Esta coleção é também uma coleção mix, uma vez que apresenta as principais histórias do Cavaleiro das Trevas, no entanto é específica deste personagem. Outras coleções específicas publicadas pela Levoir foram as coleções Batman 80 anos (10 volumes), Liga da Justiça (5 volumes) e Mulher Maravilha (5 volumes).


Tendo lido todas estas coleções e tendo em conta que foram uma porta de entrada importante para ter uma noção tanto do universo Marvel como do universo DC, não deixa de ser um pouco curiosa a organização dos materiais compilados nas mesmas. Por exemplo, se repararmos nos primeiros 3 volumes da coleção Batman 80 anos, Batman: Jogo Final (Batman #35-40) , Batman: Peso Pesado e Batman: Bloom, verifica-se que estes volumes dão continuidade às histórias Batman: Corte das Corujas (Batman #1-7), Batman: Cidade das Corujas (Batman #8-11) e Batman: O Regresso do Joker (Batman #13-17 e Detective Comics #12), que foram publicadas originalmente como os volumes 3, 4 e 8, respetivamente, da coleção Super-Heróis DC Comics. Todos estes arcos fazem parte da saga do Batman durante os Novos 52 e, na minha ótica, poderiam ter sido publicados todos juntos numa única coleção dedicada a esta fase do personagem. Naturalmente seria necessário publicar os restantes arcos que completam esta fase, mas seria possível ter uma coleção com 10 volumes que publicasse toda esta saga de forma completa.


Outro caso paradigmático desta falta de organização nas publicações da Levoir são também as histórias da Liga da Justiça durante a fase dos Novos 52. O primeiro arco, Liga da Justiça: Origem, foi publicado como o número 1 da coleção Super-Heróis DC Comics. Apesar de, tal como nas publicações do Batman que referi anteriormente, existirem arcos que não foram publicados pela Levoir, a saga Mal Eterno, publicada como os volumes 9 e 10 da coleção No Coração das Trevas, trata-se de uma importante saga do universo DC durante os Novos 52 e que teve implicações relevantes na fase final da revista principal da equipa. Essas consequências podem ser vistas nos volumes Liga da Justiça: O Vírus Amazo e Liga da Justiça: A Guerra de Darkseid 1 e 2 publicados na coleção dedicada à Liga da Justiça. Este caso é ainda mais relevante do que o anterior, uma vez que mostra que existem publicações que têm ligação direta nos seus eventos distribuída por 3 coleções diferentes.


Apesar disso a Levoir chegou a publicar algumas coleções que compilam volumes da mesma fase. A coleção Harley Quinn (3 volumes) publicou 3 arcos da fase dedicada à personagem da autoria de Amanda Conner, Jimmy Palmiotti e Chad Hardin. No entanto, na sua publicação original esta fase recebeu mais volumes. Finalmente, a coleção Watchmen/Doomsday Clock (10 volumes) conseguiu publicar toda uma saga ao longo de uma coleção. Com os primeiros 4 volumes a reeditarem a saga clássica da autoria de Alan Moore e Dave Gibbons, os restantes 6 volumes são exclusivamente dedicados ao evento Doomsday Clock da autoria de Geoff Johns e Gary Frank que deu sequência à obra seminal dos comics americanos. Infelizmente a editora não voltou a publicar mais coleções de super-heróis. Mesmo assim, apesar de achar que as primeiras coleções mix foram importantes para criar uma base de leitores de super-heróis, numa fase posterior acho que a editora deveria ter publicado sagas completas nas suas coleções uma vez que creio ser esse o tipo de leituras que os leitores mais experientes procuram. Outra sugestão seria a publicação dos volumes da fase dos Novos 52 da Mulher-Maravilha na coleção que a editora publicou referente à personagem.


Já na sua fase final de publicações, a editora publicou vários volumes no seu selo DC Black Label. Livros como Batman: O Último Cavaleiro na Terra, Harleen, Batman: Maldito, Batman: O Cavaleiro das Trevas III - Raça Suprema, All-Star Superman, Batman: O Cavaleiro Branco, Joker: Sorriso Mortal, bem como as reedições de Batman: Ano Um, Batman: O Cavaleiro das Trevas e Batman: Asilo Arkham foram os últimos lançamentos da editora que publicou estes de forma individual, isto é, sem estarem atrelados a uma coleção.


Por sua vez, a editora G Floy Studio Portugal iniciou a sua publicação de comics americanos da Marvel com volumes auto-conclusivos como Wolverine: Logan, Loki e Homem-Aranha: Exposição Negativa. Não obstante, a editora começou a fazer apostas na publicação de fases completas de personagem. É neste contexto que séries como Alias, Os Surpreendentes X-Men, Os Novos X-Men, O Imortal Punho de Ferro, entre outras receberam edição completa em Portugal. Este tipo de publicações sem dúvida que são aqueles que fazem falta, de modo a continuar a manter os leitores portugueses de super-heróis a consumir as edições nacionais em vez que as procurarem no mercado estrangeiro.

Mesmo assim, nos últimos tempos a editora reduziu imenso os lançamentos de Marvel e tem apenas publicado os volumes referentes à coleção Preto, Branco & Sangue que, na minha opinião, não são suficientes para manter vivo o interesse dos leitores. É ainda de salientar que a contra parte polaca da editora, a Mucha Comics, tem feito apostas verdadeiramente aliciantes para os seus leitores como X-Men: A Era do Apocalipse, Venom: Lethal Protector The Spectacular Spider-Man Vol. 1 de DeMatteis e Sal Buscema. Certamente estes volumes seriam bem recebidos pelos leitores portugueses.


Muitas das razões apresentadas para justificar a ausência de publicações de super-heróis em Portugal são, para além dos custos elevados de licenciamento destas obras, a facilidade dos leitores portugueses em ler os materias na sua edição original. De igual modo, o acesso às versões originais também é relativamente fácil, o que é potencializado pela ausência de edições nacionais. Como estas não existem, nem nas bancas nem nas livrarias, os leitores recorrem ao material estrangeiro para ler. Sendo assim, não me parece que o problema seja falta de interesse por parte dos leitores, mas sim falta de oferta por parte das editoras.  Adicionalmente a ausência de edições nacionais, deram um espaço para as edições brasileiras que são importadas e que têm algum público a aderir às mesmas.

Ao longo do último ano a Coleção Clássica Marvel tem sido das poucas edições de material Marvel presente nas bancas em edição nacional, no entanto, apesar de compilar uma fase incrível da Marvel, acredito que o público alvo desta coleção são leitores mais velhos que leram estas edições quando eram mais novos e que são atingidos por um enorme sentimento de nostalgia. Isto não significa que não hajam leitores curiosos e interessados por conhecer os primórdios da Marvel, como é o meu caso.

Um outro problema que se verifica nas grandes superfícies é a presença de material estrangeiro ao lado das edições nacionais quando existe um lançamento. Principalmente quando é lançado o primeiro volume de uma saga em edição nacional, é usual vermos as edições estrangeiras dos volumes seguintes ao lado. Infelizmente alguns leitores são impacientes e tendem a comprar as edições estrangeiras em vez de esperarem pelas edições nacionais dos volumes seguintes, o que tem impacto direto nas vendas das edições nacionais e, consequentemente, na análise de investimento das editoras neste tipo de lançamentos. Por fim, é também difícil para as editoras portuguesas competirem com os preços das edições estrangeiras que têm tiragens maiores e, naturalmente, preços mais em conta.


O problema do "desaparecimento" dos super-heróis das bancas portuguesas é um tema bastante complexo e pode ter-me escapado algum ponto relevante. Seja através de publicações como a Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel (60 volumes) editada pela Salvat (que curiosamente foi a minha porta de entrada para o mundo da banda desenhada) ou pela volta dos lançamentos da Levoir e da G Floy Studio Portugal ou até pelo surgimento de uma nova editora de banda desenhada, o meu desejo é que os super-heróis voltem às bancas portuguesas pois fazem bastante falta às mesmas.


No entanto, não deixem de dar a vossa opinião relativamente a este tema nos comentários porque só desta forma poderão habilitar-se a vencer o passatempo em que irei oferecer estes dois livros! O vencedor será anunciado num post no blog no próximo dia 15 de maio. Boa sorte a todos e boas leituras!