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segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Análise - "Moby Dick Vol. 1 e 2" com argumento e ilustrações de Christophe Chabouté

A adaptação do romance Moby Dick de Herman Melville com argumento e ilustrações de Christophe Chabouté e que foi originalmente publicado em dois volumes pela Vents d'Ouest em 2014 recebeu finalmente edição nacional pela editora Levoir como os volumes 1 e 2 da Coleção Novela Gráfica - Série VII.



Para começar admito que nunca li a obra original, pelo que não poderei dar a minha opinião relativamente à fidelidade da adaptação. Mesmo assim, fiz uma pesquisa e descobri que o livro é bastante mais extenso do que a adaptação para BD, pelo que concluo que o artista francês decidiu incluir apenas os momentos fulcrais do romance na sua adaptação. Não obstante, após a leitura não senti nenhum corte abrupto na construção narrativa. Com isto, considero que Chabouté apresenta uma história bem construída e que assenta perfeitamente na construção e divisão da mesma através de capítulos. Para quem leu a adaptação de Frankenstein de Mery Shelly de Georges Bess saberá do que estou a falar. Mas, para aqueles que não conhecem a premissa do romance, a história passa-se no século XIX, no auge da indústria baleeira que operava na Nova Inglaterra. O narrador, Ismael é um jovem que anseia por novas experiências o que o leva a embarcar no navio baleeiro, que está prestes a zarpar, o Pequod. O misterioso capitão do navio, Ahab, tem como único objectivo vingar-se de Moby Dick a baleia branca que lhe arrancou uma perna. Toda a tripulação vai unir-se ao seu capitão em busca de vingança, tornando a viagem perigosa e doentia.



De facto, apesar de Moby Dick ser uma história que apresenta momentos frenéticos de ação, inicialmente com a captura de cachalotes e, posteriormente com o combate mortal com a criatura que dá nome ao livro, a narrativa apresenta um vigor e força maior nos seus temas, sejam eles o confronto entre homem e natureza ou na desenfreada e desmedida busca por vingança por parte do capitão do navio. Indubitavelmente foram estes temas que mais me atraíram durante a leitura da obra. É fascinante a forma como a obsessão do comandante do Pequod o leva à loucura, além de tornar toda a tripulação prisioneira da sua sede de vingança. Deste modo, as interações entre os personagens são intrigantes, dado que os mesmos têm consciência de que o animal apenas se conduz pelo instinto inerente à sua natureza, enquanto vêm o seu comandante a sucumbir aos mesmos instintos, perdendo a capacidade de racionalizar durante o processo.



Algo que descobri durante a pesquisa relativamente à obra original é que a mesma é bastante extensa dado o seu caráter extremamente descritivo. E é neste sentido que a genialidade de Chabouté vem ao de cima. Através do seu exímio trabalho a preto e branco e extremamente expressivo, o mesmo consegue transmitir aos leitores de forma impactante a vasta gama de sentimentos e sensações que os personagens sentem. Deste modo, a máxima "uma imagem vale mais do que mil palavras" é aplicada de forma exímia. Além disso, permite que os capítulos se desenrolem com uma ritmo bastante agradável. Mas para além deste ponto, a ilustração do artista é exemplar na planificação das vinhetas, bem como no uso e alternância do preto e branco no fundo das vinhetas. Finalmente, o mesmo emprega dinamismo nas cenas de ação, além de mostrar com brutalidade a força do animal. Destaque ainda para a genialidade da capa do segundo volume, em que apresentam apenas parte do animal, o que passa a sensação de enormidade da criatura.





Sabendo que este material foi publicado no âmbito da Coleção Novelas Gráficas da Levoir e tendo em conta a relação qualidade/preço destas edições é normal que alguns leitores achem que esta obra merecia uma edição melhor. Particularmente gostaria de ver esta obra numa edição integral e com um formato maior (como o original) à semelhança do livro Frankenstein de Mery Shelly editado pel'A Seita. Mesmo assim, acho que a edição da Levoir é interessante. Mais uma vez estas são em capa dura com destaque para o papel que apresenta textura baça (ideal para o preto e branco da ilustração) e gramagem superior a outros volumes de coleções anteriores da editora. Destaque ainda para o texto introdutória da autoria de Pedro Bouça que prepara o leitor para o conteúdo do livro, além de conter informações relevantes.
Poderão ver mais imagens destes álbuns aqui: https://www.instagram.com/p/Cww5scEMAXW/ e https://www.instagram.com/p/Cw7JJrtsJRH/.



Se durante 3 anos os leitores portugueses não puderam desfrutar de uma Coleção Novela Gráfica da Levoir, os mesmos têm aqui a possibilidade de leitura de uma obra que, por si só, já justifica a existência da sétima série da mesma. Mesmo não apresentando a edição que o material merecia, a leitura de Moby Dick é altamente recomendada e sem dúvida merece estar nas estantes dos leitores de BD.

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Análise - "O Penteador" com argumento e ilustrações de Paulo J. Mendes

Foi na primeira edição do MaiaBD que adquiri o exemplar 496 (de 500) do álbum O Penteador que conta com argumento e ilustrações de Paulo J. Mendes. Foi também neste evento que conheci o artista e que tive o privilégio de receber um sketch e um autógrafo do mesmo. Mesmo assim, só agora no período de férias é que tive oportunidade de ler este álbum e deixem que vos diga que belo álbum que a Escorpião Azul editou.



Esta "desnovela gráfica", como o próprio autor e bem refere no prefácio, é definitivamente um dos melhores álbuns portugueses de banda desenhada que li recentemente. É certo que o mesmo foi publicado em 2020 mas não me passou despercebido. Aliás, o reconhecimento do público e da crítica levou-me a abrir este volume com alguma expectativa e entusiasmo. Felizmente acabei a leitura do mesmo com um sorriso na cara, farto de rir e com vontade para comprar Elviro, o mais recente trabalho do artista portuense.



Neste livro os leitores acompanham o jovem Mafaldo Limparrim que se desloca a Poço Redondo, uma vila suburbana de montanha conhecida pelos seus maus ares, para conhecer o patrão da velha loja de miudezas para a qual se candidatou numa vaga de emprego. Emprego esse o de penteador de manequins. Inicialmente os leitores podem estranhar todo aquele contexto e personagens mas rapidamente irão perceber que a proposta do artista é criar uma comédia extremamente divertida e assumidamente politicamente incorreta. E este é para mim o grande destaque e trunfo do artista com este álbum. Ao não ter "medo" de criticar qualquer classe social, Paulo J. Mendes vai mostrando aos leitores do seu livro a bela cidade de Poço Redondo e apresentando igualmente um vasto leque de personagens que irão acompanhar Mafaldo no seu quotidiano. Quotidiano esse que se resume a bebedeiras com os seus novos amigos, o atendimento dos clientes da loja, nomeadamente uma senhora bastante peculiar, as tertúlias com as figuras da política e da religião, entre tantos outros acontecimentos bizarros mas verdadeiramente divertidos.


Ao longo do livro o artista apresenta vários personagens, cada um com uma personalidade muito própria e que o leitor vai conhecendo melhor tal como o nosso protagonista. Com um ritmo agradável, ao virar das páginas o artista consegue enrolar os leitores no quotidiano repetitivo de Limparrim, no entanto apresentando sempre um elemento surpresa que não deixa os leitores aborrecerem-se.


As ilustrações de Paulo apesar de serem a preto e branco e não apresentarem um contraste nítido como em outros livros, é um traço que condiz com a narrativa e ajuda a dar o tom cómico do livro. É definitivamente um estilo "cartoonesco" o que torna estes personagens ainda mais icónicos. Mesmo assim, e tendo em conta que as personagens têm traços simples, os cenários são ricos e detalhados o que ajuda imenso na imersão do leitor na vila de Poço Redondo.



A edição da Escorpião Azul é em capa brochada com badanas, papel baço e apenas contém um prefácio do leitor como extras. Poderão ver mais imagens deste álbum aqui: https://www.instagram.com/p/CvuUHIbMzVV/

O Penteador é um livro que recomendo bastante pelo seu argumento divertidíssimo, ritmo que proporciona uma leitura agradável e ilustrações que imergem os leitores neste universo tipicamente português. Definitivamente um dos melhores álbuns do catálogo da editora Escorpião Azul.

sexta-feira, 28 de julho de 2023

Análise - "Frankenstein de Mary Shelley" com argumento e ilustrações de Georges Bess

Publicado recentemente pela editora A Seita como parte da sua coleção Nona Literatura, Frankenstein de Mary Shelley com argumento e ilustrações de Georges Bess é um dos melhores livros que li este ano. O ilustrador de séries como O Lama Branco e Juan Solo e responsável pela adaptação de Drácula de Bram Stoker igualmente editada pel'A Seita, apresenta aos leitores a sua versão do clássico de ficção científica.


Apesar da história estar enraizada no imaginário popular ocidental e de ter várias adaptações para outras mídias, nunca li o romance original da autoria de Mary Shelley, pelo que não poderei comparar a fidelidade da adaptação de Bess ao original. Mesmo assim acho que as comparações entre obra original e adaptação devem-se focar mais nas mensagens e ideias transmitidas do que propriamente na forma como esta é feita. Deste modo, acho que as adaptações devem ser fieis às mensagens e tópicos da obra original mas julgadas por aquilo que são e não por aquilo que poderiam ou deveriam ser. Sendo assim, aquilo que o artista francês apresenta é uma excelente história, muito bem construída e com uma mensagem forte e concordante com a da obra original.



O livro tem 200 páginas, divididas por 17 capítulos, na qual a história é desenvolvida. Desde já gostei bastante da divisão da história em pequenos capítulos. Ao longo da narrativa o narrador vai alterando consoante o personagem em foco. Assim, a narrativa começa com Walter, o capitão de navio que encontra Victor Frankenstein perdido à deriva num enorme bloco de gelo. O capitão resgata então o homem que muito doente conta a história da sua vida e da sua maior criação. Deste modo, a narrativa faz um salto temporal para o passado em que acompanhamos a juventude de Victor e a sua jornada até à criação do monstro de Frankenstein. Aqui Bess habilmente muda o narrador para o personagem de Victor o que permite ao leitor perceber quem este é e quais as suas motivações. Além disso, esta mudança no narrador permite que o autor consiga construir o personagem de Frankenstein. Durante 3 capítulos acompanhamos então a jornada de pesquisa científica de Victor bem como percebemos até que ponto a ambição deste homem o faz cometer atrocidades. As sequências de eventos são dinâmicas e bem construídas até ao momento em que o monstro e protagonista da história é apresentado.



A partir deste momento quem assume a narração por grande parte da obra é a própria criação de Victor. À semelhança daquilo que Georges fez com o cientista suíço, neste momento a narração passa para o monstro e o leitor vai lendo o relato em primeira pessoa das atrocidades vividas e posteriormente cometidas pelo monstro. Com páginas suficientes e sem nunca sentir algum tipo de pressa no desenvolvimento da narrativa, acompanhamos o monstro nos seus primeiros anos de vida e os momentos que marcaram estes. Assim, o monstro enfrenta o medo e consequente fúria da humanidade perante aquilo que não entende, os instintos dos animais durante a sua jornada pela floresta, bem como etapas normais do desenvolvimento de um ser racional como ler, falar e refletir. Estes momentos marcam a tragédia do monstro que se mostra inicialmente um ser movido por ideais nobres mas que perante o ódio sofrido pelos humanos se vai transformando num verdadeiro monstro. Destaco novamente a narração em primeira pessoa do monstro que tem um impacto ainda maior no leitor. Ao longo da leitura senti pena, raiva e acima de tudo um sentimento de injustiça por ver que um ser movido por boas intenções é vítima de um tratamento execrável apenas pela sua aparência.



Mas é a própria racionalidade do monstro que o vai levar à sua queda moral. Naturalmente durante a sua descoberta do mundo, este começa a refletir sobre a sua origem até que parte em busca do seu criador. E esta é, sem dúvida a parte que mais me entusiasmou durante a história. A sequência de eventos é trágica e chocante e conduz a trama a um final extremamente triste mas com uma mensagem absolutamente poderosa. Não é à toa que com mais de 200 anos de existência esta história de mantenha relevante na nossa cultura.



Se o argumento já é bastante conhecido, talvez o ponto mais interessante das adaptações em banda desenhada seja mesmo as ilustrações. Aqui temos um livro a preto e branco que é um deleite para os olhos. Georges Bess apresenta uma ilustração extremamente detalhada e expressiva. Apesar de serem obras diferentes, consigo ver algumas semelhanças no nível de expressividade presente nesta obra e  no livro Monstros de Barry Windsor-Smith. Bess usa maioritariamente vinhetas grandes, num estilo quase cinematográfico e apresenta uma variedade de layouts nas suas ilustrações. Aqui os leitores nunca se vão aborrecer ao virar de cada página. O artista francês também faz um excelente uso do preto e do branco nos seus cenários. Por exemplo, para demonstrar o isolamento do monstro, os leitores irão encontrar muitas vinhetas em que temos o monstro e um fundo predominantemente branco. Por outro lado, em muitos casos os cenários são muito bem representados e com um nível de detalhe incrível. Mas o grande destaque é a expressividade dos personagens, sendo que o artista consegue uma relação simbiótica entre o texto e as ilustrações de modo a elevar o impacto emocional do argumento.



A edição d’A Seita é em capa dura, com papel mate que combina com o preto e branco das ilustrações. Este volume inclui ainda as pranchas adicionais e ilustrações da edição de luxo francesa. Tal como em outras obras a editora lançou uma tiragem especial com uma capa alternativa prateada, exclusiva da Wook.

Poderão ver mais imagens deste álbum aqui: https://www.instagram.com/p/Cul57xFs15E/



Com um argumento muito bem adaptado e ilustrações belíssimas, Georges Bess reapresenta o clássico romance de Mary Shelley numa adaptação para a nona arte que os leitores portugueses poderão apreciar graças à edição d'A Seita.

sexta-feira, 14 de julho de 2023

Análise - "Helter Skelter - Queda e Ascensão" com argumento e ilustrações de Kyôko Okazaki

Publicado originalmente na revista Feel Young entre 1995 e 1996, Helter Skelter - Queda e Ascensão é uma das mais recentes apostas da Sendai Editora. Com argumento e ilustrações de Kyôko Okazaki, este mangá, que em julho de 2012  recebeu uma adaptação cinematográfica em live action com realização de Mika Ninagawa e com Erika Sawajiri no papel de Lilico, foi uma experiência de leitura bastante agradável.


Neste álbum, que tem o mesmo nome que uma famosa música do The White Album dos The Beatles, acompanhamos Lilico, a maior modelo que Tóquio já viu. Além de modelo, a protagonista é também cantora e atriz, sendo desejada pelos homens, adorada pelas raparigas e invejada pelas mulheres. Tal como o nome indica, aqui os leitores acompanham a queda e ascensão de Lilico. Isto pode ser surpreendente, uma vez que normalmente a trajetória de acontecimentos é inversa, no entanto, aqueles que já leram a história irão concordar que o subtítulo condiz perfeitamente com a história.

Deste modo é interessante perceber a dualidade da personalidade de Lilico que à frente das câmaras e dos holofotes é alguém que inspira os outros, enquanto que nos momentos mais pessoais se mostra uma pessoa totalmente desprezável. Assim, Lilico é uma mulher que faz tudo o que for preciso para ser o centro das atenções. Ao longo da história, a argumentista consegue desenvolver muito bem esses dois lados da personagem. Além disso, a história também mostra como Lilico se tornou nesta mulher com uma personalidade extremamente complexa. Algo que senti durante a leitura foram sentimentos mistos relativamente à protagonista, o que demonstra que a trama é complexa e que as coisas não são preto no branco.


Mas como todos sabemos, a indústria da fama é cruel e anda sempre à procura da "nova carinha bonita". Com isto Lilico vê-se numa luta para não perder o estatuto que tanto sofreu para conseguir. Deste modo, Lilico entra numa jornada de autodestruição, tanto física como psicológica. Esta destruição é demonstrada por vários episódios em que as várias personagens coadjuvantes vão ganhando o seu destaque. Simultaneamente é desenvolvida uma sub-trama paralela que se trata de uma investigação relativa às mortes de pacientes de uma clínica especializada em cirurgias estéticas.



Não pretendo desvendar mais sobre a obra uma vez que acho que os leitores devem experienciar as revelações deste livro aquando da sua leitura. Destaco que se trata de uma história adulta e que está repleta de sexo e violência extrema. Definitivamente trata-se de uma história para maiores de 18 anos e que choca bastante, não só pelos elementos anteriormente referidos, mas principalmente pela manipulação de que várias personagens são vítimas. Finalmente, o grande feito da artista com esta obra é a crítica à futilidade da beleza física e como isso pode conduzir à destruição moral e psicológica do ser humano.


No que diz respeito às ilustrações, este livro é o clássico exemplo de que não se deve julgar um livro pela sua capa. E, neste caso específico, acredito que a maioria dos leitores irá ficar desapontado com a discrepância entre a ilustração da capa e as ilustrações propriamente ditas. O traço é esquisito, não muito apurado e faz me lembrar até o traço de Frank Miller em algumas das vinhetas dos seus últimos trabalhos (o que não é lá muito bom que se diga!). Os cenários variam muito entre algum detalhe ou ausência de detalhe e as caras das personagens conseguem transmitir o que as mesmas sentem, no entanto o problema é que a obra não é consistente. Mesmo assim, consigo encontrar algum charme nas ilustrações até porque as mesmas são uma espécie de representação do quão "feio e cruel" o mundo da fama pode ser. Apesar de tudo, algo que a artista consegue transmitir perfeitamente é o sofrimento e agonia que as personagens sentem ao longo da história (chega a ser incomodativo em alguns momentos). Mas é importante realçar que a artista foi vítima de atropelamento o que a impediu de fazer ajustes nas ilustrações da obra.



Com 320 páginas a preto e branco e encadernação com capa brochada, a edição da Sendai apresenta papel de boa qualidade e um trabalho editorial ao nível da obra. Sem dúvida que é uma edição que está a par de outras que se vêm no mercado.

Poderão ver mais imagens deste álbum aqui: https://www.instagram.com/p/CtyowWpss7-/

Mesmo que tenha sido publicada há 27 anos atrás, Helter Skelter continua a ser uma obra relevante e que retrata muito bem os perigos do mundo da fama e como os bastidores do mesmo podem ser bastante sombrios e movidos pelas piores intenções. Uma obra que gostei bastante e que recomendo a sua leitura e que é uma muito boa adição ao catálogo da Sendai que está a trazer mangas mais adultos e underground para o nosso mercado!

quarta-feira, 5 de julho de 2023

Análise - "As Aventuras Completas de Dog Mendonça e Pizzaboy" com argumento de Filipe Melo e ilustrações de Juan Cavia

Treze anos após a publicação do primeiro volume da série Dog Mendonça e Pizzaboy, a editora Companhia das Letras (a nova casa para o catálogo da dupla Filipe Melo e Juan Cavia) reuniu todos os volumes da série num volume integral ao estilo omnibus. Denominado como As Aventuras Completas de Dog Mendonça e Pizzaboy, este volume reúne os livros As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy (fevereiro de 2010), As Extraordinárias Aventuras de DogMendonça e Pizzaboy II: Apocalipse (outubro de 2011), As Fantásticas Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy III: Requiem (novembro de 2013) e Os Contos Inéditos de Dog Mendonça e Pizzaboy (abril de 2016), originalmente publicados no formato capa mole pela editora Tinta-da-China. Este volume conta ainda com um conto ilustrado inédito de 60 páginas, criado especialmente para este volume, e que se trata de um spin-off com a Madame Chen como protagonista. Para engrandecer ainda mais este volume, é incluída uma secção de extras com textos de João Miguel Lameiras relativos a cada um dos volumes.


Desde já quero realçar a ideia de publicar este livro dado que as edições originais da editora Tinta-da-China já se encontram esgotadas há bastante tempo. Além disso, com este lançamento é finalmente encerrado o processo de migração da obra da dupla Filipe Melo e Juan Cavia para a editora Companhia das Letras.


Curiosamente a série Dog Mendonça e Pizzaboy era a única obra da dupla que ainda não tinha lido. Deste modo, consegui finalmente ler a série de uma ponta à outra. Naturalmente, e tendo em conta que não "entrei na série de cabeça", já estava com o mindset de que o tom e abordagem dos autores nesta obra quando comparado ao das obras posteriores é muito mais leve, aventuresco e humorístico. Além disso, outro ponto importante a realçar é a própria evolução dos autores ao longo dos anos. Como seria de esperar, e como afirmado pelo Filipe em vários eventos de promoção deste álbum, existem elementos que os próprios autores se "envergonham". Mas isso é claramente a prova de que o argumentista e o ilustrador evoluíram na sua produção criativa ao longo dos anos. Mesmo assim, tenho a dizer que As Aventuras Completas de Dog Mendonça e Pizzaboy acertam exatamente na sua proposta: serem histórias divertidas de aventura que homenageiam o cinema fantástico dos anos 80.


As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy

É neste contexto que surge o álbum As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy. No entanto, a história começa anos antes, dado que a ideia original surgiu de um guião para cinema escrito por Filipe Melo que contaria com Nicolau Breyner como protagonista. Esse filme nunca passou da fase de pré-produção e transformou-se, então, numa história de banda desenhada. Neste primeiro volume, somos apresentados aos personagens principais da série. Eurico Catatau, também conhecido como Pizzaboy, é um entregador de pizzas comum que, por acaso, se torna aprendiz do detetive paranormal Dog Mendonça. Dog, por sua vez, é um homem misterioso e especializado em investigar casos sobrenaturais. Juntamente com o seu assistente Pazuul, um demónio disfarçado de menina, formam uma equipa improvável. Quando uma série de misteriosos desaparecimentos de crianças começa a assombrar a cidade de Lisboa, Dog, Pizzaboy e Pazuul embarcam em uma investigação cheia de perigos, monstros e criaturas paranormais. Ao longo da trama, Eurico descobre que existe uma Lisboa subterrânea e secreta que é povoada por monstros e demónios paranormais.


Este primeiro volume pauta o tom cómico e de ação que caracteriza toda a série. Nota-se claramente todas as inspirações de Filipe Melo, desde bandas desenhadas como Hellboy, Dylan Dog e Spider-Man, até filmes como Back to the Future, Star Wars e Indiana Jones. Deste modo, os leitores que já tiveram contacto com alguma destas obras irão, certamente, apreciar o trabalho da dupla neste volume. O argumento cumpre a estrutura narrativa e apresenta um início, meio e fim bem desenvolvidos. É certo que o desenvolvimento dos personagens não é profundo, no entanto a aventura compensa com boas cenas de ação e diálogos e situações hilariantes. Além disso, o grande trunfo de Filipe é a construção de personagens carismáticos e de um universo interessante. Para juntar tudo isto surge Juan Cavia com um tipo de ilustração que se inspira bastante nos comics americanos. As ilustrações são boas, sendo umas melhores do que outras, e Cavia consegue brilhar com as double splash pages. Algo que não apreciei tanto neste primeiro volume é a planificação das vinhetas, que é algo que melhora bastante nos outros volumes da série. As cores são de Santiago Villa que faz escolhas acertadas que ajudam a dar a atmosfera perfeita aos ambientes em que a história de desenrola. Por todas estas razões este primeiro volume foi um sucesso junto do público aquando do seu lançamento e, apesar de não ser perfeito, foi sem dúvida uma lufada de ar fresco para a banda desenhada nacional.


Os Contos Inéditos de Dog Mendonça e Pizzaboy

Contrariamente ao que os leitores poderiam pensar, nesta versão integral foram incluídos Os Contos Inéditos de Dog Mendonça e Pizzaboy entre o primeiro e o segundo volume. Particularmente gostaria de ver os álbuns ordenados pela sua ordem de lançamento, não obstante a experiência de leitura não é afetada por esta decisão editorial.


Este volume reúne quatro histórias curtas, publicadas originalmente na revista Dark Horse Presents, e conta algumas pequenas aventuras de Dog Mendonça, como a sua origem. O destaque aqui é, sem dúvida, a origem de Dog Mendonça que se apresenta como uma história mais profunda e trágica. Naturalmente, verifica-se o amadurecimento de Filipe como contador de histórias e criador de personagens. Gostei bastante destes contos, uma vez que vêm acrescentar factos interessantes a este universo. Além disso, no que diz respeito à construção da narrativa, Filipe recorre à quebra da quarta parede o que torna estas histórias as mais hilariantes e cómicas de toda a série. As ilustrações de Cavia são bem mais consistentes do que no primeiro volume, o que também demonstra a evolução do ilustrador. Algo que realço neste volume é a inclusão de ilustrações da autoria dos artistas portugueses Joana Afonso, Filipe Andrade, Jorge Coelho e Ricardo Cabral a separar os quatro contos. De uma forma geral, acho que estes contos são um complemento essencial à série.


As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II: Apocalipse

Segue-se o segundo volume da série publicado originalmente em 2011. A história do álbum As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II: Apocalipse começa com uma praga de gafanhotos que anuncia a chegada do Apocalipse. Assim, depois de serem contactados por um padre, os nossos heróis partem rumo a Fátima para encontrarem a Nossa Senhora. Com isto o escopo da história é bem mais grandioso do que no álbum anterior. Mais uma vez não irei dar mais informações pois acredito que os leitores devem ler as histórias por si.



Ao contrário dos volumes anteriores e apesar deste volume manter os elementos presentes nos mesmos, acho que a história é a mais fraca de todas. Com isto quero dizer que continuamos a ter um livro cheio de cenas de ação e diálogos bem dispostos, no entanto acho que o argumento não traz uma história tão inspirada como o anterior. Além disso, acho que este é a história com os elementos mais fantasiosos de toda a saga. De uma forma geral, a fórmula do volume anterior foi utilizada mas sem obter o mesmo sucesso esperado. Ainda assim é de destacar a coragem do argumentista em abordar questões religiosas e conceder um lado crítico relativamente a estas. Principalmente num país que tem uma ligação profunda ao Cristianismo.



Mesmo assim, apesar do argumento deste volume ser mais fraco, acho que as ilustrações de Juan Cavia caminham na direção oposta. Aqui considero que a planificação das vinhetas é melhor construída e os desenhos a lápis são também mais consistentes do que no primeiro volume. As cores de Villa aplicadas diretamente nos desenhos de Cavia também ajudam a elevar a arte deste volume.



De um modo geral, a leitura deste volume é leve, boa e entrega uma boa dose de entretenimento puro, no entanto a qualidade fica abaixo do volume anterior.


As Fantásticas Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy III: Requiem

Em 2013 chegou às bancas As Fantásticas Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy III: Requiem, o volume que encerra a série. Este terceiro volume veio contrariar a regra de que as terceiras partes das trilogias são sempre as piores. Diria até que de todos, este é o melhor volume da série.



A história apresenta um salto temporal grande e vemos já Eurico adulto com a sua família. Por sua vez, Dog está com problemas com o fisco e vai viver para a casa do seu amigo Pizzaboy. Para levar a história para a frente, Filipe Melo traz um velho arqui-inimigo de Dog que tinha aparecido no final do volume 2 num cliffhanger. A história mantém o tom épico introduzido no segundo volume e Filipe habilmente traz um lado mais humano para os seus personagens. Eurico, pela questão familiar. e Dog, principalmente pelas revelações do passado aqui descritas, são personagens cuja profundidade humana é muito mais desenvolvida do que nos volumes anteriores. O lado crítico e satírico de Melo está bem presente sendo que o visado desta vez é o governo intervencionado pela Troika. O argumento é muito bem construído e repleto de momentos inesquecíveis. Os personagens secundários também são interessantes com destaque para o vilão deste álbum. O argumento ainda consegue trazer novas explicações como por exemplo o porquê de Dog usar um penso curativo no sobrolho. A explicação é plausível e é apresentada num flashback que é determinante para a história deste volume. Aqui temos Filipe Melo no seu melhor no que diz respeito aos argumentos da série, o que leva a uma conclusão deste universo que é muito boa e faz jus à trajetória dos personagens.


A arte de Juan Cavia melhora ainda mais neste volume, sendo aquele que mais aprecio em toda a série. Não há muito mais que possa dizer relativamente ao trabalho gráfico. Destaco apenas a sequência inicial deste volume em que Dog Mendonça e Pizzaboy estão a assistir à adaptação cinematográfica das suas aventuras em que Cavia, para retratar as cenas do filme, recorreu ao seu professor de desenho Carlos Pedrazzini para desenhar e passar tinta nos seus desenhos a preto e branco numa homenagem ao artista Domingo Mandrafina. O resultado é simplesmente belo.

O terceiro volume de Dog Mendonça é claramente o melhor de toda a série, em que Filipe Melo e Juan Cavia estão no seu melhor para criar a conclusão de uma série que os catapultou como uma das melhores duplas da banda desenhada nacional.

As Fabulosas Aventuras de Madame Chen

Finalmente temos o inédito conto ilustrado denominado As Fabulosas Aventuras de Madame Chen. E sem mais rodeios só tenho a dizer: que excelente história! Este conto conta com mais de 60 páginas e retrata a história de origem da personagem Madame Chen antes de vir para Lisboa. Aqui Filipe Melo constrói uma história deliciosa, muito bem estruturada e, acima de tudo, profunda. Esta é talvez a história mais humana de todo este universo. Diria até que este trabalho encontra-se mais em linha com o que os autores criaram com Balada para Sophie do que propriamente com o universo Dog Mendonça e Pizzaboy. Destaque para os poemas escritos por Yvette Centeno que contribuem para a beleza desta história.


A acompanhar o belo texto de Filipe temos as ilustrações estonteantes de Juan Cavia. Aqui o ilustrador utiliza uma técnica de pintura ao estilo tradicional chinês e que conferem até um lado mais dramático e em linha com o tom da história de Melo. É, sem dúvida, o casamento perfeito entre texto e ilustração. A prova viva da forma como as mentes destes dois artistas pensam como uma só.



Falando agora da edição, esta conta com um prefácio de Filipe Melo que nos apresenta à série. No início de cada um dos volumes são também incluídos os prefácio presentes nas edições originais dos livros que são da autoria das lendas do cinema John Landis, Lloyd Kaufman, George A. Romero e Tobe Hooper. Este volume conta com acabamento em capa dura e o título tem relevo prateado. O papel é de boa gramagem, sendo brilhante nas histórias de banda desenhada e nos extras e mate no conto ilustrado. Esta escolha é acertada dado que condiz perfeitamente com as ilustrações que Juan Cavia realizou para este conto. O livro conta ainda com uma fita preta marcadora de página. Os extras, tal como referi, são textos de João Miguel Lameiras relativamente a cada uma das cinco partes do livro, acompanhados de fotos de bastidores, esboços, estudos de personagens e páginas de guiões. Realço que o tamanho das páginas é maior relativamente às edições originais. Sem dúvida que é um excelente livro a nível técnico e que se ajusta à relação qualidade/preço.

Poderão ver mais imagens deste álbum aqui: https://www.instagram.com/p/CuUomRuMRT5/


Para finalizar, fico extremamente contente por ver todos estes volumes novamente disponíveis para os leitores portugueses. Sem dúvida que esta série é um marco na banda desenhada nacional e mostrou que é possível fazer banda desenhada comercial e apresentar um elevado nível de qualidade. Além disso, este lançamento é igualmente importante uma vez que mostra que é possível lançar álbuns como este, com uma qualidade gráfica enorme e com um elevado número de páginas, e mesmo assim ser viável comercialmente. Finalizo a análise com um conselho muito breve: vão comprar este álbum porque não se irão arrepender!

segunda-feira, 5 de junho de 2023

Análise - "Akira" com argumento e ilustrações de Katsuhiro Otomo

Esta sem dúvida foi uma das minhas leituras preferidas de todos os tempos e uma das que mais apreciei. Akira de Katsuhiro Otomo tem uma reputação inegável entre os leitores de banda desenhada. Durante muitos anos tive alguns volumes, no entanto, apenas no mês passado é que consegui completar a edição nacional editada pela Meribérica/Liber. Vamos ver o que achei da obra!


Começando pela edição nacional, esta segue a edição publicada originalmente pela Epic Comics, associada à Marvel Comics nos Estados Unidos. Deste modo, além de ter leitura ocidental (da esquerda para a direita), fruto do "espelhamento" das vinhetas, esta edição é igualmente colorida. As cores são da autoria de Steve Oliff que até recebeu um prémio Eisner em 1992 pelo seu trabalho de colorização. Em 2019, a JBC Portugal tentou publicar a obra seguindo a versão original, no entanto apenas publicou o primeiro de seis volumes. Particularmente gostaria de ter lido a versão original e espero que, no futuro, alguma editora portuguesa o faça, não obstante gostei bastante da versão ocidentalizada dado esse trabalho fantástico de Steve Oliff. Além de tornar mais acessível a obra a leitores ocidentais, a colorização aproxima o trabalho do manga à adaptação cinematográfica lançada em 1988 e que foi realizada pelo autor do manga. De facto, o meu primeiro contacto com a obra foi através desse filme absolutamente influente e um marco no cinema de animação, o que me permitiu ter uma noção da história contada por Otomo. No entanto, dado a extensão da obra original, a versão cinematográfica trata-se de uma versão condensada da história do manga e que apresenta até algumas diferenças. Além disso, a publicação original da obra ocorreu entre 20 de dezembro de 1982 e 25 de junho de 1990 nas páginas da revista Young Magazine e o filme foi lançado em 1988. Mas dada toda esta apresentação, de que se trata afinal a história de Akira?


A trama passa-se em Neo Tókio, no ano de 2019, 38 anos após uma explosão atómica ocorrida na cidade e que levou à 3ª Guerra Mundial. Assim, Neo Tókio apresenta-se como uma cidade pós-apocalíptica muito inspirada na cultura cyberpunk e que está repleta de gangues de motos que entram em lutas entre si. Um desses gangues é liderado por Shotaro Kaneda, uma das várias personagens que assume o protagonismo ao longo da história.


Numa noite, o gangue de Kaneda sofre um acidente e Tetso, o melhor amigo de Kaneda, atropela uma criança com pele azul clara e aspeto de idoso. Após este evento, Tetso começa a ter reações estranhas e que irão desencadear um enorme poder que o mesmo desconhecia ter dentro de si. Estas reações acabam por atrair a atenção de agentes do governo que realizam experiências com crianças. Tetso acaba por ser capturado e torna-se cobaia dos cientistas do governo que estudam os poderes de Tetso. É neste contexto que Kaneda se envolve numa mega série de eventos para salvar o seu amigo, sem saber da existência de Akira, uma entidade poderosa que está prestes a despertar.


Dada uma breve apresentação do enredo, o primeiro ponto que quero referir é que esta história é bastante complexa, tanto pelas tramas e sub-tramas que apresenta para um vasto elenco de personagens, bem como para os diversos temas que Katsuhiro Otomo aborda ao longo do desenrolar da mesma. Akira aborda no seu argumento temas como poder, corrupção, política e o envolvimento de outros países na política externa, amizade, reflexões sociais, utilização de drogas, entre outros. Assim, o grande feito de Otomo na construção do argumento é abordar todos estes temas de forma cativante e mantendo o leitor sempre na ânsia de saber qual o desfecho da trama e dos respetivos personagens. E é maioritariamente através dos seus personagens que o argumentista consegue comentar sobre os diversos temas que referi.


Falando um pouco dos personagens, diria que Akira não apresenta um verdadeiro protagonista. Mesmo assim diria que os personagens mais relevantes são Tetso, Kaneda e Kei. Apesar disso, a história apresenta vários núcleos de personagens e, mesmo aqueles que apresentam um papel mais secundário quando comparado a estes três personagens, acabam por ter um papel fundamental no enredo. Isto permite que Otomo consiga variadas vezes mudar o foco da ação, construindo as bases necessárias para o desenvolvimento da história, sem que o leitor nunca perca o interesse durante a leitura.


Dado este vasto elenco de personagens, um dos pontos mais interessantes de Akira é a forma como Otomo trabalha os seus personagens, dando-lhes arcos narrativos interessantes e complexos. Além disso, as ações tomadas pelos personagens, bem como as consequências das mesmas ajudam a moldar o caráter das personagens. Destaque para o personagem Tetso que, por razões óbvias, é aquele que apresenta uma maior evolução ao longo de toda a história.


Relativamente às ilustrações, estas são absolutamente magistrais. Em primeiro lugar, dada a extensão da obra é fantástica a consistência apresentada ao longo dos 38 capítulos. Dada a inclusão de imensas cenas de ação, este talvez seja o destaque mais óbvio da ilustração deste manga. Os diferentes ângulos apresentados pelo artista, assim como a capacidade de dar dinamismo à ação, são alguns dos pontos mais fortes da ilustração. No entanto, o detalhe apresentado nos cenários e a utilização de sombra e luz são igualmente utilizados de forma exímia. Por fim, o ponto que acho mais importante na ilustração de Otomo são as expressões faciais e a linguagem corporal que este ilustra. Abordando o caso específico de Tetso, sem utilizar uma única palavra e recorrendo apenas às expressões faciais de dor, ao suor e lágrimas e à postura contorcida do seu corpo, o artista consegue transmitir ao leitor da forma mais eficaz possível os momentos agoniante que o personagem está a passar. Absolutamente soberbo!


Para finalizar tenho de fazer referência ao filme de animação realizado pelo autor da obra e lançado em 1988. É indubitavelmente um marco no cinema de animação por todas as técnicas revolucionárias que foram utilizadas e pelo recurso a 24 frames por segundo que tornam a animação extremamente dinâmica. Dadas as limitações de tempo para desenvolver o argumento, a história apresentada é uma versão condensada do manga, com algumas diferenças, mas que consegue captar a essência do mesmo. Acho que é uma experiência complementar e um filme obrigatório para qualquer cinéfilo.

Passados tantos anos Akira continua a ser uma das obras mais importantes e relevantes de todos os tempo e que sem dúvida tem resistido muito bem ao teste do tempo. Katsuhiro Otomo mostra nesta obra toda a sua qualidade como autor completo, tanto no argumento como na arte. É sem dúvida uma daquelas obras que "toda a gente tem de ler pelo menos uma vez na vida" e que devem estar sempre em catálogo para os leitores. Deste modo, o meu desejo é que alguma editora recupere a série e finalize o trabalho iniciado pela JBC Portugal.

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Análise - "Reckless Vol. 2: Amigo do Diabo" com argumento de Ed Brubaker e ilustrações de Sean Phillips

O mais recente lançamento de banda desenhada da editora G Floy Studio trata-se do livro dois da série Reckless da autoria de Ed Brubaker e Sean Phillips. Denominado Amigo do Diabo, este livro apresenta-nos uma nova aventura do protagonista Ethan Reckless.


Uma das características mais interessantes desta série é cada capítulo apresentar uma história fechada. Deste modo, este volume pode ser a porta de entrada a este universo, mesmo para aqueles que não leram o primeiro volume. No entanto, recomendo sempre que possível a leitura pela ordem de lançamento. Dito isto, para aqueles que não leram o primeiro volume, Ethan trata-se de um ex-revolucionário dos anos 60 e agente infiltrado que atua atualmente como cobrador de dívidas, detetive privado e homem-demolidor.



Neste volume em específico, a ação passa-se no ano de 1985, uma altura em que a vida corria de feição à personagem principal. Ed Brubaker recorre a uma prolepse para iniciar a história. Assim, vemos Ethan a sobreviver a um acidente de viação e a ser perseguido por um grupo de skinheads. Dado este panorama, o argumento interrompe a ação para um momento meses antes e que irá dar origem a toda a trama. Reckless, de visita à Biblioteca de Santa Monica para encontrar pistas relativamente a um caso, conhece Linh Tran após a mesma o ajudar a contornar algumas regras de acesso a dados que pretendia. As duas personagens acabam por se envolver e criam um relacionamento. Ao longo das primeiras páginas vemos o desenrolar do caso em que Ethan trabalha, enquanto a relação de ambos se desenvolve. Numa das sessões de cinema que Ethan partilha com Linh, uma rapariga que aparece no filme desperta uma reação curiosa de Linh. Assim, Linh acaba por desvendar a Ethan que a atriz em questão é a sua meia-irmã, Maggie, e pede ao mesmo para a ajudar a encontrar, uma vez que a mesma está desaparecida.


É a partir desta premissa que Brubaker constrói mais uma história de investigação que tão bem sabe fazer. A história mantém a mesma estrutura de capítulos apresentada no volume anterior, algo que aprecio mas que para alguns poderá ser repetitiva. Apesar de todos os recursos que o argumentista utiliza aqui estarem presentes em outras histórias, o mesmo consegue deixar o leitor envolvido na trama e com a vontade de desvendar o mistério. De certa maneira, Brubaker é um cozinheiro que utiliza a mesma receita mas consegue alterar os ingredientes nos bolos que faz, conseguindo assim confecionar bolos parecidos mas com sabores diferentes. Neste volume, o artista mergulha no mundo das produções de baixo orçamento de Hollywood e dos cultos obscuros do final dos anos 70. Este cenário, bem como o facto de se tratar de um mistério que já se passou há alguns anos, leva a que Ethan tenha uma investigação mais complicada e inimigos bastante sinistros. Como consequência disto, a investigação ganha um peso maior durante o desenvolvimento da trama relativamente às cenas de ação que ficam um pouco de lado. Particularmente, não acho que seja um ponto negativo, até porque as personagens com quem Ethan interage são todas interessantes à sua maneira.


A trama apresenta algumas reviravoltas, no entanto, alguns pontos da mesma são um pouco previsíveis. Apesar disso, um dos conceitos que mais aprecio nos argumentos de Brubaker é a utilização do protagonista como narrador. Deste modo, dado a proximidade de Ethan a Linh, a investigação torna-se pessoal e isso reflete-se na forma como o protagonista reage aos acontecimentos da mesma. Além disso, acredito que o final da história seja ainda mais impactante devido ao uso deste recurso narrativo.

Passando agora às ilustrações, para aqueles que gostam do trabalho e do traço do Sean Phillips este trabalho está em linha com o que já se viu, por exemplo, na série Criminal. O traço não é ultra detalhado, o que pode fazer com que a arte passe despercebida, no entanto a composição das vinhetas é excelente, quer estas sejam um close-up ou um plano aberto. O arte também concede o estilo pulp noir, estando em linha com o argumento, e as cores de Jacob Phillips ajudam a amplificar isso.

 


A edição da G Floy Studio é no formato deluxe, em capa dura e com papel brilhante de boa qualidade. Os extras, apesar de serem curtos, na minha opinião são bons. Além das biografias dos autores envolvidos e do anúncio do próximo volume para o mês de outubro, a edição tem direito, tal como a anterior, a um posfácio da autoria de Ed Brubaker. Poderão ver mais imagens deste álbum aqui: https://www.instagram.com/p/Cq-iOq0s5Fk/

Este segundo volume de Reckless é tudo o que estava à espera. Um história de investigação ao estilo pulp noir com todos os elementos presentes em outras histórias desta dupla criativa. Apesar da estrutura da história e das ilustrações serem familiares, o grande trunfo da dupla é abordar novos conceitos e temas e conseguir envolver os leitores nas aventuras de Ethan Reckless.